sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

 

DESCONHEÇO A FÉ

Em puto senti medo quando sózinho já noite atravessava um denso pinhal, ía a casa do meu avô para lá do Alto do Carvalhinho, recordo-me que comecei a assobiar pelo caminho e assim venci o medo.

Em adolescente também senti muitas vezes medo - ía espalhar uns panfletos quando aquela hora, quase 2 da manhã um carro parou na berma da estrada ficando com as luzes acesas, a coberto de uns arbustos esperei minutos que pareceram horas, até que o carro arrancou, não era a PIDE, talvez apenas alguém que foi urinar. Cumpri a tarefa, espalhei os panfletos, venci o medo.

Uma vez em África(*) depois de atirar bem enroladas em esponjas as caixas da ferramenta, das peças e pás , atirei-me do heli demorando a chegar ao chão a ouvir estoiros daqueles que estremecem o solo, decorria uma operação de combate, lá desmontei o estrago no rotor traseiro numa batida num bága-bága, montando a BTA, o mouyer e as pás traseiras, regulei o cabo do comando e naquela azáfama medonha, ainda ajudei a transportar dois feridos para outro heli que aterrara naquela curta clareira da densa mata do Morége.

Safei o aparelho, mas só depois da ressaca e já na noite do dia seguinte, deitado e a pensar naquilo, é que senti medo, recordo que mal dormi. De manhã a sorrir lembrei-me «porra! Nem uma arma levei.»

Essa coisa da fé, talvez por não ser religioso, não ser crente, desconheço-a. Já o medo é uma coisa que conheço e ainda sem saber como o tenho vencido, ás vezes a custo, acaba por ser muito importante, como é importante ter coragem e ter vergonha. É claro que no medo, na vergonha e na coragem tem de haver a clarividência de entender, “porquê e para quê”, já a Fé nunca a percebi, sempre me pareceu ser a esperança disfarçada de ilusões, mentiras, rezas e adorações ao divino.

Aprendi a ter medo da guerra, a repudiar a violência e o ódio, por isto mesmo nunca votei nem voto nos saudosistas do império Colonial ou nos agora chegados bétinhos inquisidores - que em Goa até desenterraram o cientista Garcia da Horta, para lhe queimarem os ossos.

(*)Na Guiné em Fevereiro de 1973.

Sem comentários:

Enviar um comentário

 COLECÇÃO    "Na sei o que é"